1
Noite! rasgam relâmpagos o espaço carregado de nuvens,
ruge o vento, que com força brutal de FÉRREO BRAÇO,
envolve os seres em cruel tormento.
2
Tragédia horrenda, a noite é um labirinto,
cai a chuva, incessante, incansável,
o céu, é uma alma onde o sorriso é extinto,
tronitoa o trovão a cada instante.
3
Um vulto negro e tétrico, apoiado em rústico bordão,
devagarinho, vai tateando, tateando fatigado,
calcando o lamaçal pelo caminho.
4
Barco sem vela demanda um porto,
seus olhos buscam longe uma visão.
E ele segue aos tropeços, quase morto,
mal podendo conter o coração.
5
De repente, uma voz desconhecida,
e aterradora como a própria morte,
aos ouvidos lhe chega. Ele trepida,
e a voz se torna cada vez mais forte.
6
"Onde vais desgraçado, que procuras?
Detém a tua marcha desnorteada,
põe um termo a tamanha desventura",
Não! Não sigas a tua caminhada".
7
"Quem es tu?" diz o pobre caminheiro,
"Quem és tu, sombra oculta e misteriosa,
cuja voz me estremece o corpo inteiro,
e amedrontas a minha alma dolorosa?"
8
Mal termina a pergunta, quando em frente,
lhe surge alguém de faca em punho e exclama:
"Sou eu, vamos portanto inconsciente!
Mata esta sede de ouro que me inflama",
9
"Dá-me a carteira que contigo levas,
se não queres ser morto como um cão".
"Terás acaso mergulhado em trevas
como a terra esta noite, o coração?"
10
"Não vês, bem sei os meus cabelos brancos,
minhas faces rugosas e enconvadas.
Mas eu que vivo aos trancos e barrancos,
só tenho as minhas vestes enlameadas".
11
"Deixa-me, pois, na minha vida errante,
se não sou mais que um mísero velhinho.
Que pretendes de mim, pobre viandante,
que só quer prosseguir no seu caminho?"
12
Mas o vil salteador, fremindo cheio
de um furioso despeito, os dentes cerra,
vibra a faca, e sem pena e sem receio,
sangra o infeliz, que tomba e cai por terra.
13
E enquanto o velho tomba e morre e exangue,
foge o assassino a tiritar de susto,
vendo horrível caveira cor de sangue,
gravada em cada rocha, em cada arbusto.