TRGÉDIA
POR ALIPIO DE ABBRAÃO
DECLAMADA POR
CLELIA BRITO


1
Noite! rasgam relâmpagos o espaço carregado de nuvens,
ruge o vento, que com força brutal de
FÉRREO BRAÇO,
envolve os seres em cruel tormento.
2
Tragédia horrenda, a noite é um labirinto,
cai a chuva, incessante, incansável,
o céu, é uma alma onde o sorriso é extinto,
tronitoa o trovão a cada instante.
3
Um vulto negro e tétrico, apoiado em rústico bordão,
devagarinho, vai tateando, tateando fatigado,
calcando o  lamaçal pelo caminho.
4
Barco sem vela demanda um porto,
seus olhos buscam longe uma visão.
E ele segue aos tropeços, quase morto,
mal podendo conter o coração.
5
De repente, uma voz desconhecida,
e aterradora como a própria morte,
aos ouvidos lhe chega. Ele trepida,
e a voz se torna cada vez mais forte.
6
"Onde vais desgraçado, que procuras?
Detém a tua marcha desnorteada,
põe um termo a tamanha desventura",
Não! Não sigas a tua caminhada".
7
"Quem es tu?"
diz o pobre caminheiro,
"Quem és tu, sombra oculta e misteriosa,
cuja voz me estremece o corpo inteiro,
e amedrontas a minha alma dolorosa?"
8
Mal termina a pergunta, quando em frente,
 lhe surge alguém de faca em punho e exclama:
"Sou eu, vamos portanto inconsciente!
 Mata esta sede de ouro que me inflama",
9
"Dá-me a carteira que contigo levas,
se não queres ser morto como um cão".
"Terás acaso mergulhado em trevas
como a terra esta noite, o coração?"
10
"Não vês,  bem sei os meus cabelos brancos,
minhas faces rugosas e enconvadas.
Mas eu que vivo aos trancos e barrancos,
só tenho as minhas vestes enlameadas".
11
"Deixa-me, pois, na minha vida errante,
se não sou mais que um mísero velhinho.
Que pretendes de mim, pobre viandante,
 que só quer prosseguir no seu caminho?"
12
Mas o vil salteador, fremindo cheio
 de um furioso despeito, os dentes cerra,
vibra a faca, e sem pena e sem receio,
sangra o infeliz, que tomba e cai por terra.
13
E enquanto o velho tomba e morre e  exangue,
foge o assassino a tiritar de susto,
vendo horrível caveira cor de sangue,
gravada em cada rocha, em cada arbusto.
 
 

14
Mais forte e mais terrível ruge o vento,
estrondeia o trovão que tudo abala,
e quando o raio aclara o firmamento,
maior é o  sobressalto que o assola.
15
Corre através  da  escuridão,
procura onde se esconda ao menos.
É um  fantasma  na solidão da noite que o tortura,
tudo o que avista o desnorteia e pasma.
                                                                                                               
16
Pára arquejante, exausto de fadiga,
quando ao longe uma luz avermelhada,
sorrindo lhe aparece, é  a estrela amiga,
que há de levá-lo, enfim, a uma  pousada.
17
E ele vai para lá tendo-a por guia,
na esperança de encontrar nalgum casebre,
conforto para a angústia que o escrucia,
sossego e paz para a sua alma em febre.
18
Chega, enfim, outra luz mais viva e clara,
mostra-lhe aos olhos um jardim florido
onde maior delícia ele depara,
ficando assim num sonho embevecido.
19
Mas chove, sopra o vento, o frio corta,
 "é preciso  que eu entre", diz consigo,
e erguendo as mãos, bate incessante à porta,
 da qual espera o desejado abrigo.
20
"Quem bate?" Alguém com voz tremente indaga.
"É um viajor, que perdido e sem caminho,
 lhe implora um pouso. Ai! que aflição me
 esmaga, neste momento o coração mesquinho"
.
21
"Mas", pergunta-lhe a voz, "como te chamas?" 
"Se te importa saber qual o meu nome,
acederei depois ao que reclamas.
Abre! que tenho frio e tenho fome"
.
22
Cala-se, então, a voz, e sem mais delonga
abre-se a porta, ele entra.
E sem temê-lo uma mulher de cabeleiras longas,
e alva de cãs, recebe-o com desvelo.
23
Diz um relógio como um ser que chora,
 três horas. Continua a escuridão,
 a chuva se abranda,  o vento agora,
cicia apenas, cala-se o trovão.
24
Na vasta sala pela qual se estendem lindos tapetes,
tudo enleva e encanta,
há por tudo belezas que surpreendem,
quadros e espelhos de um fulgor que espanta.
25
Queda-se um pouco a contemplar absorto,
numerosos retratos e gravuras,
reminiscência de um passado morto,
num abismo de máguas e torturas.
26
Dentre todos, porém, nota um retrato,
que lhe desperta sensações terríveis,
deixando-o assim profundamente abstrato
cheio de comoções intraduzíveis.
 
E como louco despreendendo um grito,
recua sem querer, amedrontado,
Com as mãos aperta o coração aflito,
 e exclama: "Não sou mais que um desgraçado".
28
A velhinha pergunta-lhe  surpresa:
"Que coisa extranha neste quadro  existe?
Que dor tão funda no teu seio pesa,
Que remorso ou pesar na tua alma existe?"
29
E ele tremendo e esbugalhando os olhos,
mostra o retrato que lhe fica em frente.
Que dor lhe vai no peito e nos refólios,
e vai dizendo alucinadamente.
30
"Aquele velho que ali vês a olhar-me,
é o que eu matei pouco no caminho,
Matei-o sem ruido e sem alarme,
e seu cadáver, lá ficou, sozinho".
31
"Infame! Assassinaste o meu marido,
e deixaste-me só, desamparada,
Ai! o meu bom velhinho tão querido,
sem ele morrerei desesperada".
32
E a gemer e a gritar, num desatino
a inditosa velhinha as mãos levanta,
pragueja e amaldiçoa o seu destino,
que a dilacera com durezas tantas.
33
Vendo-a assim desvairada e semi-louca
O bandido cruel, temendo ao certo,
 que a escute alguém, lhe diz:  "Cale esta boca,
que não seja o meu crime descoberto".
34
E assim falando no furor que cega,
na sede atroz de rápida vingança,
ele nem sente o coração que ofega,
e a daga em punho para a velha avança.
35
Ela, porém, de fronte erguida  o enfrenta
 e exclama: "Quem és tu que assim me dizes?
Maldita seja a tua mão odienta
que me fez a maior das infelizes".
36
"E como calar a dor que me trocidas?
Quem és e de onde vens carrasco abjeto?
Não terás tido alguém na tua vida,
que merecesse acaso o teu afeto?"
37
A estas palavras, mais do que de  pressa,
ele suspende o golpe cuminário,
e mal podendo murmurar começa,
 a amarga descrição do seu calvário.
38
"Basta mulher, basta, feriste agora,
 o meu coração na fibra da saudade.
despertaste em minha alma a dor que chora,
extinguiste o veno da maldade".
39
"Doces recordações! Eu também tive
já não sei onde, uma formosa estância,
onde em folguedos longo tempo estive,
e onde deixei as ilusões da infância".
40
"Lá viveram comigo muitos anos,
meus adorados pais, meus irmãozinhos,
mas eu, levado por fatais enganos,
atirei-me no negror destes caminhos".
41
"Eu era tão feliz nesta vivenda,
onde junto ao amor a paz reinava,
e hoje, ao peso da sorte mais horrenda,
já nem sei essa casa onde ficava". 

42
"Dei-me ao vício e aos crimes,
na  minha alma a luz do amor me parecia extinta,
quis por vezes ser bom, volver à calma,
sem coração, porém, não há quem sinta.
43
"
Tornei-me um salteador, um assassino,
Um monstro sem igual,  por quê?  Não sei,
só sei que sem fé, fiquei sem tino,
 
sem compaixão, e sem temor à lei".
44
"E foi assim, que ao surpreender na estrada,
 o teu marido,  o assassinei.
 Se é boa, como julgo, a tua alma bem formada,
este pecado horrífico perdoas?"

45
"Perdoar é dificil, no entretanto,
dize o teu nome e o de teus pais,
eu sinto aqui no coração imerso em pranto,
como uma luz a  brilhar no labirinto",
46
"Uma voz que me revela um mistério qualquer,
Não saberás quanto tempo abandonaste aquela,
cujo nome jamais esquecerás?
47
"Sim eu recordo-me bem, há já vinte anos
que deixei pelo mundo o lar paterno.
Minha mãe era um anjo entre os humanos,
Mas eu, troquei o meu céu por um inferno".

48

E ao impulso da angústia que o consome,
quase inconsciente do faz e diz,
enumera dizendo-lhes o nome,
dos que ficaram no seu lar feliz.

49
E à medida que os nomes vai citando,
do pai saudoso, da mãezinha amada,
dos irmãozinhos que deixou brincando,
abre a velhinha os olhos, espantada,

50
E no transporte que a domina exclama:
"Bem me dizia o coração ferido.
Tu és meu filho, e aquele que lá na lama
ficou morto, e que era o meu marido",
51
"era pois o teu pai, filho inditoso,
tu que foste o meu anjo predileto,
és o assassino do melhor esposo,
e um parricida de execrando aspecto".

52
Isto dizendo a mísera coitada,
cai de chofre sem voz sem movimento,
pois sua alma de frágil e esgotada,
não resistira a um golpe tão violento.
53
"Minha mãe! Minha mãe! Ouve o que eu digo.
Hei de ser para sempre o teu amparo,
em mim terás o mais sincero amigo,
serei um filho cada vez mais caro".
54
"Mas, levanta-te mãe, vem resoluta
aliviar o martírio que me corta?"
A velhinha, porém, já nada escuta,
nada sente nem vê porque está morta.
55
Junto à velha que dorme ali sem vida,
sem ter por si ao menos uma prece,
rola por terra o corpo de um suicida,
o cadáver do filho que enlouquece.


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FIM